domingo, 26 de outubro de 2014

Maior rentabilidade para quem investe em tecnologia

Maior rentabilidade para quem investe em tecnologia

Este é um ano de rentabilidade maior para o pecuarista, conforme as projeções dos especialistas. Segundo Rogério Romanini, diretor de relações institucionais da Famato (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso), os preços em toda a cadeia do boi gordo, do bezerro desmamado ao gado terminado, estão melhores e remunerando maisos bovinocultores de cortes. “Isso já estava na hora de acontecer, pois há tempos os preços estavam defasados; os custos eram diferentes e havia casos de produtores buscando outras atividades”, explica. Essa rentabilidade, diz Romanini, ocorre por uma combinação de oferta menor e demanda maior – principalmente externa –, o que eleva os preços.

Conforme análise de mercado do Rabobank, os preços devem se manter firmes no segundo trimestre de 2014. Isso confirma a avaliação do diretor da Famato sobre a baixa oferta de animais no mercado interno e forte demanda internacional pela carne brasileira. A realização da Copa do Mundo no Brasil também deve aquecer a demanda por carne bovina, pressionando os preços no atacado. “A percepção de alta atratividade para confinamento em 2014 deve elevar o número de cabeças confinadas, recuperando a forte queda observada em 2013”, diz o relatório.

Pressão sobre preços

Para Paulo Araripe, consultor da Boviplan Consultoria Agropecuária, este é um ano de grande insegurança política e econômica para o Brasil, em virtude das eleições presidenciais. Analistas econômicos e políticos acreditam na possibilidade de uma crise no país no segundo semestre do ano, o que provocaria uma pressão baixista muito grande sobre o preço da carne, principalmente no mercado interno.

Por outro lado, as exportações brasileiras de carne estão a todo vapor e, em conjunto com a desvalorização do real frente ao dólar e ao euro, provocaram uma grande entrada de reais, relativa à maior demanda pela carne brasileira no mercado externo. “Estes dois fatores se equilibrariam. Ou teremos uma estabilidade de preços para o final do ano ou um pequeno crescimento”, afirma.

Araripe acredita ainda que há outro fator interessante a ser levado em consideração. Trata-se das margens dos frigoríficos brasileiros, que estão muito mais apertadas do que em 2013. Conforme o consultor, o preço pago pela arroba aos pecuaristas subiu bastante nos últimos quatro meses, pressionado pela baixa oferta do produto. Porém, o preço no varejo no mesmo período não acompanhou, diminuindo drasticamente as margens dos frigoríficos.

“Esta situação é bem atípica e pode ser um sinal de que, para o segundo semestre, dependendo dos resultados das eleições, teremos uma mexida no mercado interno. Há que se levar em conta que as exportações, não em volume, mas em reais, devem equilibrar esta conta”, avalia.

Em relação à demanda e oferta no mercado interno, Araripe avalia que a demanda está estabilizada, apesar de o consumo de carne suína e de frango estar em queda. Por causa da baixa oferta, a produção nacional está se segurando para conseguir suprir o mercado interno e exportar, a preços melhores. “Espera-se o equilíbrio do mercado interno para o final de 2014”, afirma.

Ele acredita que, se os frigoríficos não conseguirem repassar os preços do atacado (arroba para o pecuarista) para o varejo (consumidor final), haverá forte queda no valor da arroba. “Se o contexto político e econômico do país assim permitir, veremos aumento de preço ao consumidor”, diz.

Ajuste de oferta

Para Rogério Romanini, diretor de relações institucionais da Famato, a queda da oferta foi ocasionada pela redução do abate de bovinos este ano, principalmente de fêmeas. “Os cálculos do Imea (Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária) mostram que estamos em uma das menores safras de boi gordo e, para piorar, houve problemas climáticos no centro-sul brasileiro”, avalia.

Sobre os custos de produção, dados do Imea revelam ainda um custo operacional total para a cria de R$ 93,25/@; para quem faz ciclo completo, de R$ 92,13/@; e, para quem faz somente engorda, de R$ 80,58/@. Para o criador, seu produto final é o bezerro, seja ele desmamado ou com um ano de vida, e, em Mato Grosso, esses animais estão sendo comercializados, segundo levantamento do Imea, a um preço de R$ 148,00/@. “Para os outros dois sistemas de criação (ciclo completo e engorda), o principal produto é o boi gordo e os preços de venda estão maiores que os custos de produção. Portanto, hoje o cenário é melhor, uma vez que os bovinocultores de corte estão ‘vencendo’ seus gastos”, analisa Romanini.

De acordo com Araripe, só é vantajosa a relação de custo de produção e renda para o produtor que estiver intensificando sua atividade pecuária, seja ela de cria, recria, engorda ou ciclo completo. “Pecuária de corte vive da economia de escala e, dentro deste contexto, só é viável com intensificação”, afirma. Manter 0,5/0,7 unidade animal por hectare é muito menos lucrativo do que intensificar a produção e passar a ter 2,0 unidades animais por hectare.

“A aplicação de insumos deve ser precedida de um projeto agropecuário para embasar o crescimento, caso contrário, o tiro pode sair pela culatra. Neste contexto, presenciaremos uma situação de aumento de custo de produção, sem aumento de receitas”, alerta Araripe. Segundo ele, para os confinadores a situação é um pouco diferente, pois os custos de produção aumentaram bastante. “É preciso fazer contas e avaliar o investimento. Em geral, para quem compra boi magro, o negócio está bem ruim, porém, para quem produz a própria reposição, o negócio pode ser excelente”, diz.

O consultor avalia ainda que, para o produtor que trabalha com tecnologia para intensificação da produção, o cenário é de maior rentabilidade. “Quem produzir mais na mesma unidade de produção vai ganhar mais. Já para o produtor que não investe em seu negócio e está estagnado em termos de produtividade e de aplicação de tecnologia, a tendência é de menor rentabilidade, pois os custos de produção estão subindo, atrelados à desvalorização do real”.

Lavoura-pecuária-floresta

Os pecuaristas de Mato Grosso, um dos Estados mais tecnificados do país, estão investindo em tecnologias para um uso mais racional do solo, através da integração lavoura-pecuária-floresta. Os produtores recuperam pastos degradados, aumentando a produtividade da área, e garantem um manejo mais sustentável dos recursos naturais, entre outros benefícios, para as culturas envolvidas. “Outras tecnologias que estão sendo difundidas referem-se à utilização da inseminação artificial (IF) e da inseminação artificial em tempo fixo (IATF), o que permite, entre outras coisas, o manejo mais racional das atividades da propriedade e o melhoramento genético do rebanho. Além disso, o próprio pastejo rotacionado pode ser citado, visto que é uma prática em implementação”, afirma Rogério Romanini.

O sistema de produção com maior vantagem para o produtor hoje é, sem dúvida, a pasto, complementa Paulo Araripe. “O custo de produção da arroba é bem menor neste caso. Se o sistema de confinamento for uma etapa do processo de engorda e terminação a pasto, aí sim teremos uma condição ideal entre produtividade, rentabilidade e qualidade de carne. Se ele for o sistema de produção de carne, então poderemos ter muitos problemas relativos à rentabilidade do negócio, embora este sistema seja muito mais fácil de operar”, avalia.

Do pasto ao confinamento

Quem apostou nessa combinação de engorda a pasto e terminação em confinamento foi a Ledacara Empreendimentos & Agropecuária. De acordo com Rodrigo Silva, diretor da empresa, foi tomada a decisão de iniciar, em 2011, a reforma das áreas de pastagens e agrícolas da fazenda de 250 alqueires, em Selvíria, em Mato Grosso do Sul. Dessa reforma resultaram cinco pastos rotacionados em 12 piquetes cada. Nesta safra 2013/14, a propriedade já está trabalhando sob novo manejo.

“Essa mesma área de 250 alqueires nos permitia ter entre 600 e 700 cabeças de gado, o que significava 400 unidades animais em área útil. Agora, depois da reforma, controle e análise de solo e adubação, a capacidade de lotação da fazenda subiu para 1,2 mil unidades animais em 2013”, conta Silva. Segundo ele, a estratégia da empresa é aproveitar o máximo de lotação possível no período de águas para que, na seca, possa começar a tirar o gado do pasto para levá-lo ao confinamento. Com isso, na época de baixo crescimento e desenvolvimento do pasto, a lotação dos rotacionados é reduzida. “Uma das vantagens é em seu nível mais alto, o que dá o benefício de o custo fixo ser diluído por maior número de cabeças”, explica.